São Paulo 17/12/2020 –

Depois de atravessar a fase mais aguda da crise causada pelo coronavírus, o Brasil, a exemplo do que ocorreu em outros países, assiste ao início do que parece ser uma segunda onda de infecções. Com mais de nove meses dedicados ao enfrentamento da pandemia, as projeções do mercado apontam para uma queda de 4,4% do PIB em 2020, segundo o Boletim Focus, do Banco Central. Ainda que seja um resultado desfavorável, no auge da crise, analistas econômicos chegaram a apostar em uma queda superior a 6,5%.

Para 2021, com previsão de início das campanhas de vacinação em massa ainda no primeiro trimestre, as projeções indicam um crescimento do PIB de 3,5%, o que é um avanço dado o impacto de 2020. Mesmo que sujeitas a revisões, as projeções para a atividade econômica merecem atenção porque a evolução do crédito e da inadimplência mantém estreita relação com o crescimento econômico. Para exemplificar, um elevado e persistente aumento do desemprego pode impor dificuldades às famílias, tornando-as insolventes.

Ao fazer essa análise, Elias Sfeir, presidente da Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC), destaca que, enquanto a atividade econômica sofria os impactos da pandemia, o crédito reagiu bem, provendo liquidez aos negócios. “Isso se deveu, em parte, às medidas tomadas por agentes privados de crédito, pelo governo e pela autoridade monetária. No próximo ano, porém, o cenário macroeconômico será determinante para o desempenho desse mercado e para mitigar o risco da inadimplência”, observa.

Nessa linha de raciocínio, ele argumenta que qualquer projeção de curto prazo deve levar em consideração a evolução da pandemia e condições hospitalares, mas também a dinâmica própria da economia. “Contido o surto, é isso que determinará se teremos um avanço maior ou menor da atividade”, avalia Sfeir.

De acordo com o executivo, várias questões precisam ser levadas em conta na hora de traçar as perspectivas para 2021: os impactos do fim do Auxílio Emergencial no consumo, a equação fiscal do país, o comportamento da taxa básica de juros, a inflação associada à desvalorização do Real. “Temos de considerar ainda as condições de crédito e a inadimplência, que tende a subir após a queda de negativação durante a pandemia. Essas são questões da maior importância, mesmo em um cenário de normalidade”, afirma.

Em relação ao mercado de crédito, para 2021, de acordo com previsões coletadas pela Febraban, espera-se um avanço 6,8% do saldo nominal de crédito. Se confirmadas as projeções, haverá uma redução no ritmo de avanço dos empréstimos com relação ao crescimento de 2020. Os números também sugerem um aumento da taxa de inadimplência em 2021, que deverá atingir 4,3% da carteira de crédito livre.

“A perda de fôlego do crédito e o avanço da inadimplência devem ser relativizados pelo fato de que 2020 foi um ano totalmente atípico. Com a esperada volta à normalidade, é natural que haja algum arrefecimento no apetite e na oferta de recursos. As projeções indicam também um reforço do crédito às pessoas físicas, em detrimento do crédito a pessoas jurídicas, invertendo-se a tendência observada ao longo deste ano”, aponta o presidente da ANBC.

Mesmo com a oferta de recursos menos abundante, a equipe econômica acredita que o mercado de crédito será um dos motores do crescimento econômico no próximo ano. Por isso, algumas medidas de aprimoramento desse mercado seguirão na pauta. Um dos temas a serem discutidos em 2021 é a ampliação das possibilidades do uso de garantias na contratação de empréstimos, de forma a dar mais segurança a quem os concede e possibilitar a cobrança de juros menores.

Outro ponto de atenção está na situação fiscal. O enfrentamento da pandemia fez a dívida pública alcançar um patamar superior a 90% do PIB. Dado o tamanho do desafio enfrentado, o aumento foi assimilado pelo mercado. “O problema é que, se novas medidas colocarem a dívida em uma trajetória crescente, a taxa de juros e a confiança poderão ser impactadas, reduzindo o vigor da retomada”, aponta o presidente da ANBC.

As projeções do Boletim Focus já apontam que a taxa Selic poderá alcançar 3% ao ano em 2021, acima do patamar atual de 2%. O dado mostra que o mercado espera um novo ciclo de possível alta da taxa básica, mas de forma gradual e mantendo os juros ainda muito distantes dos níveis observados na última década. “Em um cenário de maior déficit fiscal, o temor é que os juros voltem a subir mais cedo e mais rápido do que o esperado”, finaliza Sfeir.

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