São Paulo, SP 2/2/2021 –

A pedagoga Jane Garcia, especialista em primeira infância, fala como foi para as famílias lidar com o distanciamento social.

O ano de 2020 foi bastante desafiador, trazendo grandes impactos para toda a humanidade, causados pela pandemia oriunda da Covid-19. Devido às normas impostas a fim de diminuir os efeitos de contaminação do vírus, as pessoas precisaram se adaptar a uma nova forma de vida, o distanciamento social, contudo, causando um grande impacto na vida dos jovens, adolescentes e crianças, conforme matéria publicada no portal UOL em junho 2020.

Com base na publicação, a sociedade não estava preparada para lidar com o isolamento, a mudança na rotina repentina não deixou margem para que houvesse uma adaptação ou mesmo uma organização para o novo formato, que a princípio, todos imaginaram ser algo passageiro e tem perdurado até os dias de hoje, ou seja, mais de 1 ano. Embora não tenha sido previsto, mesmo porque não havia dimensão no início do que estava por vir. Sobre os danos gerais causados pela pandemia, o número de pessoas que desenvolveram problemas psicológicos cresceu mês a mês, desde crianças até os idosos, não houve acepção de idade ou classe social.

Para os especialistas, as crianças e os adolescentes precisaram de uma atenção maior, além dos próprios conflitos, tiveram que presenciar conflitos entre familiares, como exemplo de casais que se divorciaram durante a quarentena. Outro agravante foram as aulas on-line, enquanto os pais lutavam para tirar os filhos do excesso de telas, houve um efeito ao contrário, já que era o único instrumento para utilização nas aulas remotas. Não foi apenas o excesso do uso de telas que causou conflitos, mas em outros casos viu-se também dificuldade nas famílias de conseguirem adaptar na rotina as aulas a distância. Alguns alegavam falta de adaptação da criança, outros que não tinham tempo, ou seja, reflexo de uma falta de acompanhamento e paciência desses pais, já que famílias com mais estrutura psicológica, embora uma situação desafiadora, souberam gerir melhor.

A especialista em primeira infância, Jane Garcia, Pedagoga e criadora do blog Educar e Amar, relatou que manter as crianças longe da escola e do convívio social foi além de desafiador para os pais, principalmente porque, segundo ela, a criança desenvolve o intelecto através do brincar e da vivência, principalmente com pessoas fora do seu cotidiano. As famílias não estavam preparadas psicologicamente para lidar com a rotina de trabalhar no formato home office no mesmo momento dedicar-se aos cuidados com a rotina da casa e filhos. As mudanças aconteceram de forma brusca, não houve um preparo, simplesmente a rotina foi alterada, uma criança que estava habituada a ir para a escola, ter contato com outras crianças e adultos, por exemplo, sofreu um grande impacto. Embora as famílias possuam laços afetivos, têm uma convivência, tanto os pais quanto os filhos não estavam acostumados a viver em isolamento, ambos tinham uma liberdade de ir e vir, os abalos psicológicos afetaram adultos e crianças. Pais que não souberam lidar com as emoções dos filhos e filhos que sofreram por pais abalados emocionalmente que perdiam facilmente a paciência.

A pedagoga explicou, ainda, que as famílias tiveram a oportunidade de se conhecerem melhor, mesmo em um momento delicado com o enfrentamento da pandemia. Muitos pais estavam acostumados a delegar sua função a terceiros, como algum membro da família, babás e escolas que disponibilizam também o formato de atendimento integral. Muitos pais não conhecem de fato seus próprios filhos, têm pouca convivência e não se dedicam o tempo que deveriam na atenção com os filhos, perdendo o controle da educação, criando filhos sensíveis e frustrados, uma geração que não sabe ouvir não, já que o sim costuma dar menos trabalho.

Segundo Jane, ao longo de sua carreira dedicada também na direção de uma escola de educação infantil por 11 anos, nos atendimentos que realizava com as famílias, percebia quão desafiador era conseguir fazer os pais enxergarem que muitas vezes eram eles que precisavam de ajuda e não a criança. “Muitos pais não estavam preparados quando os filhos nasceram e mesmo com o passar do tempo, mantiveram a rotina sem filhos já os tendo, o que isso quer dizer é, que os pais têm dificuldade em gerenciar a vida com a chegada dos filhos, mantendo a carreira profissional ainda como prioridade, em primeiro lugar, deixando os filhos em segundo plano, quando na verdade, a criança necessita de atenção e cuidados e não pode ser educada em stand-by, no automático”, relatou.

Pensando em tudo isso, Jane Garcia desenvolveu um método onde, de maneira remota, criou o atendimento on-line as famílias, o intuito era instruí-las a passar pelo isolamento social de maneira mais leve, fazendo com que houvesse uma aproximação de pais e filhos, ela criou o Escola para Pais. O formato consiste em ensinar os pais a serem pais, parece óbvio, mas segundo ela, nem todos estão preparados para encararem a nova fase da vida, já que a tendência é focar na carreira profissional e o padrão de família já não existe, não tem mais aquele “modelo familiar”, mas modelos de família nas quais precisam se adaptar e alcançar uma harmonia e equilíbrio. O projeto foi um sucesso que ela foi convidada a participar como coautora de um livro dedicado à educação com mais dezessete especialistas. Em seu capítulo fez questão de abordar o tema que mais se fez presente em seu trabalho com as famílias, saber equilibrar a carreira profissional e a educação dos filhos, o relacionamento familiar, destacando a importância de obter o sucesso em ambos.

Ela ainda relata que, quando a família está estruturada, consegue enfrentar os problemas sem grandes abalos, com um diálogo mais aberto e harmônico, diferente de uma família que não soube trabalhar esses conceitos, como se cada membro da família vivesse uma vida solo, individual, focada apenas em si, mesmo que intencionalmente. “Rever e reorganizar a rotina, é o primeiro passo para ter um melhor relacionamento com os filhos, incluindo diálogos diariamente e com a consciência de que não é quantidade do tempo que se dedica, mas a qualidade. Sucesso familiar é muito mais realizador que o sucesso profissional, embora seja importante, mas estrutura familiar te ajuda a enfrentar situações que apenas sucesso profissional não”, conclui.

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